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Ilha de lixo

O que é a Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico? Autor(a): Russell McLendon (MNN)
Quando as autoridades prosseguiam com sua missão de busca e recuperação dos restos da tragédia do voo 447 da Air France, houve um momento em que pensavam ter finalmente começado a encontrar peças do avião naufragado. Vários objetos que flutuavam no Oceano Atlântico próximo à região do acidente foram examinados detalhadamente na busca de qualquer evidência do que havia acontecido, até que, de repente, os investigadores se deram conta daquilo que estavam vendo. Não era parte do avião; era apenas velho lixo oceânico.O erro destacou um problema global: entulho marinho, a maior parte dele composta de plástico, que começa em mãos humanas mas termina no oceano, frequentemente dentro do estômago de animais ou à volta de seus pescoços. Notícias sobre estas “manchas de lixo” vêm surgindo aos poucos há anos, mas recentemente ganharam força. Embora a confusão do 447 da Air France tenha acontecido no Atlântico – e estes imprecisos e emaranhados montes de lixo estejam surgindo por todo o globo – o símbolo da poluição plástica continua a ser a crescente Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico, o maior lixão do mundo.
De que ela é feita?A Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico tem por vezes sido descrita como uma “ilha de lixo”, mas essa é uma concepção errônea, diz Holly Barnford, diretora do Programa de Entulho Marinho da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA). Antes as coisas fossem assim tão simples.“Bastava irmos lá e tirar a ilha dali ”, diz Barnford. “Se fosse uma grande massa única, isso facilitaria muito mais nosso trabalho.”Em vez disso, é como uma galáxia de lixo, com uma população de bilhões de pequenas ilhas de lixo que podem estar escondidas abaixo da superfície ou espalhadas por muitas milhas. Isso pode torná-la enlouquecedoramente difícil de ser estudada – Barnford diz que ainda não sabemos quão grande é a mancha de lixo, apesar da declaração frequente de que é do tamanho do Texas.“Há os que dizem que ela é do tamanho do Texas, depois que é do tamanho da França, e eu até já ouvi dizer que é como um continente”, diz ela. “Isso apenas já deveria trazer alguma preocupação porque não temos uma ideia consistente de seu tamanho. Trata-se desses lugares todos, não uma única grande massa. Se fossem todos agrupados talvez chegassem ao tamanho do Texas, mas ainda não sabemos. Pode ser até maior que o Texas.”Embora ainda não saibamos muito sobre a mancha de lixo, sabemos que é constituída principalmente de plástico. E é aí que começa o problema.Diferentemente da maior parte do outro lixo, o plástico não é biodegradável – ou seja, os micróbios que desfazem as outras substâncias não reconhecem o plástico como alimento, deixando-o flutuando ali para sempre. A luz do sol acabará por “fotodecompor” as ligações químicas nos polímeros plásticos, reduzindo-os a pedaços cada vez menores, mas isso só piora as coisas. O plástico continua sem desaparecer; simplesmente torna-se microscópico e pode ser engolido por minúsculos organismos marinhos, entrando na cadeia alimentar.Cerca de 80% do entulho na Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico vem da costa, boa parte do qual é constituído de sacos plásticos, garrafas e vários outros produtos consumíveis. As redes de pesca flutuando perdidas no mar perfazem outros 10% de todo o lixo marinho, ou aproximadamente 705 mil toneladas, de acordo com as estimativas das Nações Unidas. O restante vem principalmente de barcos de recreio, plataformas petrolíferas marítimas e grandes navios de carga, os quais jogam cerca de 10 mil contêineres de aço ao mar cada ano cheios de coisas como caneleiras esportivas, monitores de computadores, grânulos de resina plástica e polvos de lego. Mas apesar de tal diversidade – e muito metal, vidro e borracha na mancha de lixo – a maior parte ainda é plástico, já que a maior parte do resto afunda ou se decompõe antes de lá chegar.
Como é que se forma?A Terra tem cinco ou seis principais giros oceânicos – imensas espirais de água do mar formadas por correntes em colisão – mas uma das maiores é o Giro Subtropical do Pacífico Norte, preenchendo a maior parte do espaço entre o Japão e a Califórnia. A parte superior desse giro, algumas centenas de milhas a norte do Havaí, é onde a água quente do Pacífico Sul colide com a água mais fria do norte. Conhecida como a Zona de Convergência Subtropical do Pacífico Norte, também é aqui que se acumulam os detritos.Bamford refere-se à zona de convergência como “uma rodovia de entulho” porque ela transporta lixo plástico ao longo de um comprido corredor leste-oeste que se liga a dois turbilhões giratórios conhecidos como a Mancha de Lixo Oriental e a Mancha de Lixo Ocidental. O sistema inteiro, coletivamente, compõe a Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico.Pode levar vários anos para que os resíduos alcancem esta área, dependendo de onde eles estão vindo. O plástico pode ser trazido desde o interior dos continentes através de esgotos, regatos e rios, ou pode simplesmente vir da costa. De qualquer maneira, pode ser uma viagem de seis ou sete anos antes de estar rodando na mancha de lixo. Por outro lado, as redes de pesca e contêineres de aço são muitas vezes largados exatamente junto com o resto do lixo.
Qual é o problema?O lixo marinho ameaça a saúde ambiental de várias maneiras. Eis as principais:
Enredamento:O crescente número de redes de pesca plásticas abandonadas é um dos maiores perigos do entulho marinho, diz Barnford. As redes enredam gaivotas, tartarugas marinhas e outros animais num fenômeno conhecido por “pesca fantasma”, que frequentemente os afoga. Com mais pescadores de países emergentes agora usando plástico pelo seu baixo custo e elevada durabilidade, muitas redes abandonadas podem continuar pescando ao longo de meses e anos. Um dos tipos mais controversos é o das redes derivantes, cuja parte superior fica à superfície graças a bóias e a inferior tem pesos que a arrastam pelo fundo do mar, às vezes estendendo-se por quilômetros.Praticamente, toda a vida marinha pode ser colocada em risco pelo plástico, mas as tartarugas-marinhas parecem ser especialmente suscetíveis. Além de ficarem enredadas em redes de pesca, muitas vezes engolem sacos plásticos, confundindo-os com medusas, sua principal presa. Também podem ficar presas numa variedade de outros objetos, como esta tartaruga da foto que cresceu constringida por uma rede plástica ao redor de seu corpo.
Fragmentos de entulho:Os grânulos de resina plástica são outra parte comum do entulho marinho; os minúsculos grânulos de uso industrial são embarcados em porões de navio pelo mundo todo, derretidos em usinas e remodelados em plásticos comerciais. Sendo tão pequenos e abundantes, podem facilmente se perder pelo caminho, levados pelo sistema fluvial com outros plásticos para dentro do mar. Eles tendem a flutuar aí e acabam se decompondo pela luz solar, mas isso leva muitos anos. Enquanto isso, eles causam a destruição de aves marinhas como o albatroz-de-cauda-curta.Os albatrozes deixam suas crias em terra em ilhas do Pacífico para sobrevoarem a superfície do oceano em busca de alimento, nomeadamente ovos de peixe ricos em proteínas. Os ovos são pequenos pontos balouçando logo abaixo da superfície e que, infelizmente, assemelham-se a grânulos de resina plástica. Albatrozes bem-intencionados apanham estes grânulos – junto com outros lixos flutuantes, tal como os isqueiros – e retornam para alimentar o plástico indigesto a suas crias, as quais finalmente morrem de fome ou por ruptura de órgãos. Crias de albatroz decompostas são frequentemente encontradas com os estômagos cheios de resíduos de plástico (ver foto).
Fotodecomposição:Conforme a luz do sol vai quebrando os resíduos, a superfície da água torna-se mais espessa com pedaços de plástico suspensos. Isto é ruim por algumas razões. A primeira, diz Barnford, é a “toxicidade inerente” do plástico: sabe-se que ele contém produtos químicos tais como bisfenol-A (PDF), que estudos associam a vários problemas ambientais e de saúde, e estes produtos podem vazar para a água do mar. Também se demonstrou que o plástico absorve poluentes orgânicos pré-existentes, como os PCBs, a partir da água circundante, os quais podem entrar na cadeia alimentar – juntamente com o BPA e outras toxinas inerentes – se os bocados de plástico forem acidentalmente ingeridos pela vida marinha.
O que podemos fazer?O descobridor da Grande Mancha de Lixo do Pacífico, o capitão Charles Moore, disse uma vez que um esforço de limpeza “levaria qualquer país à falência e mataria a vida silvestre nas redes enquanto estivesse sendo processada”.“Ele tem razão nesse ponto”, diz Barnford. “É muito difícil”.Ainda assim, a NOAA sobrevoa a mancha de lixo, e uma equipe de pesquisa internacional partiu para a mancha de lixo em 8 de junho – o Dia Mundial do Oceano – e ficará lá até agosto, com o propósito de recolher algum lixo antes que ele mate vida marinha. A equipe do projeto Kaisei espera eventualmente apanhar plástico suficiente do vórtice para convertê-lo em combustível diesel. Também neste verão (do hemisfério norte), o “ecologista aventureiro” David de Rothschild vai navegar ao redor da mancha de lixo num barco feito inteiramente de plásticos reciclados para destacar a associação entre entulho de plástico na terra e entulho de plástico no mar.“Em última instância, mais reciclagem de plástico e uso crescente de materiais biodegradáveis é a melhor esperança para o controle da mancha de lixo”, diz Barnford, “mas essa é uma batalha penosa.“Precisamos fechar as torneiras na fonte. Precisamos educar as pessoas sobre a correta utilização das coisas que não se desfazem, como os plásticos”, diz ela. “As oportunidades para reciclar têm que aumentar, mas, você sabe, algumas pessoas compram três garrafas de água por dia. Como sociedade, temos que aprender a reaproveitar mais aquilo que compramos.”Nota dos editores da Luz & Terra - Convidamos os nossos leitores a verem uma notícia que traz novas e fortes esperanças para a solução deste drama. Por favor, clique aqui para ver uma notícia surpreendente na página "Ciência e Cultura".

Data: Junho de 2009

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