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QUINZE GERAÇÕES MUTILAM O AMBIENTE QUE 550 PRESERVARAM




Idéias para uma história das quinhentas e cinqüenta gerações de Índios que aqui viveram
A região dos cerrados é um ponto de encontro entre a Amazônia, o Nordeste e o Sul. O planalto, é recortado pelos rios das três grandes bacias brasileiras Amazônica, Paraná e São Francisco, acompanhadas de matas de galeria, ora mais ora menos largas. No encontro das nascentes dos rios das três bacias, formou-se uma extensão maior de floresta, conhecida como Mato Grosso de Goiás. As áreas de matas oferecem solos para cultivos, a serem instalados no começo das chuvas de verão, o campo e o cerrado é muito rico em caça e em grande variedade de frutos que podem complementar a agricultura no começo das chuvas. Os rios proporcionam muito peixe no começo da seca.
Para as populações humanas ancestrais dos grupos indígenas atuais os arqueólogos classificam suas culturas, utilizando termos como Tradição e Fase, que não têm relação direta com os grupos lingüísticos, porque não se tem conhecimento sobre as línguas faladas pelos grupos arqueológicos.
Muito tempo antes dos grupos indígenas horticultores ceramistas, os grupos caçadores/coletores pré-cerâmicos, se haviam esparramado pelo território, desde 11.000 anos do presente, quase 550 gerações, utilizando os recursos de acordo com suas necessidades e em conformidade com sua tecnologia. Não se tem ainda nenhuma idéia de quando e como se instalaram os cultivos.
Aparentemente eles não surgiram nesta área, porque as diversas tradições tecnológicas até agora estudadas pertencem a horizontes mais amplos e as datas mais altas para horticultores já instalados se encontram fora da região. Faz exceção a Tradição Uru até agora só conhecida no oeste de Goiás, mas que certamente ultrapassa os seus limites em direção a Mato Grosso. Os cultivos poderiam ter chegado através da migração de grupos horticultores, ou pela aculturação dos caçadores/coletores anteriormente aí presentes, que os poderiam ter recebido de vizinhos. É possível que ambos os fenômenos tenham ocorrido.
Certamente não se pode mais resumir todo o jogo do povoamento em deslocamentos de grupos já prontos porque sobra a pergunta: onde estes se formaram? Certamente, como nas outras áreas do mundo, os sistemas agrícolas desenvolvidos por populações indígenas, como as de Goiás, são o resultado final de um longo processo de experimentação, de coleta, cultivo e domesticação, desenvolvimento e empréstimo de técnicas de um ajustamento da sociedade. Talvez a transição do período úmido e quente do altitermal para um período mais seco e ameno fosse a ocasião de povoamento.
O fato é que no centro do Brasil ainda se desconhece por completo todo o processo e depois dos caçadores se encontram de repente, já formado, os horticultores ceramistas num tempo em que o ambiente supostamente já era o atual. O mais antigo até agora detectado é o da Fase Pindorama, supostamente horticultor, que já tem cerâmica ao menos desde 500 antes de Cristo. Depois aparece a Tradição Aratu/Sapucaí, a Una, a Uru e a Tupiguarani.
As diferentes Tradições de horticultores exploram ambientes e cultivos diversos. A Tradição Una coloniza vales enfurnados, geralmente pouco férteis, com predominância de cerrados usando como habitação os abrigos e grutas naturais e como economia um forte associação de cultivos, onde predomina o milho, com a caça e com a coleta.
Imagina-se que a população se distribuía em pequenas sociedades, mais aptas para explorar os recursos diversificados que poderiam alcançar do seu ponto de instalação: o rio próximo, a pequena mata de galeria, o cerrado e muitas vezes o campo no alto do chapadão. Este ambiente não é disputado pelos grupos que constróem suas aldeias em áreas abertas.
Os primeiros aldeões conhecidos, são os da Tradição Aratu/Sapucaí. Seus domínios são os contrafortes baixos das serras do centro-sul e leste de Goiás, especialmente as áreas férteis e mais florestadas do Mato Grosso de Goiás, onde podem instalar uma economia mais fortemente dependente de cultivos, mas provavelmente sem dispensar a exploração dos frutos do cerrado, a caça e a pesca.
Sua população é numerosa e nenhum outro grupo conseguiu infiltrar-se no seu território, que por seus recursos deveria ser muito ambicionado. Suas aldeias populosas poderiam permanecer longamente no mesmo lugar e quando era necessário poderia se deslocar para um espaço próximo porque o território era fértil e estava sob domínio. Também o sistema de cultivo, baseado em tubérculos e provavelmente no milho pôde resistir aos avanços dos grupos mandioqueiros da Tradição Uru e Tupiguarani.
A Tradição Uru chega mais tarde e domina o centro-oeste do Estado. Avançando ao longo dos rios, ocupa terrenos mais baixos, provavelmente de pouca utilidade para os aldeões que haviam se instalado antes, mas importante para eles, por causa da locomoção e principalmente da pesca.
Desta forma se criou entre os dois grupos uma fronteira bastante estável, mas talvez nem sempre pacífica, onde aparentemente a Tradição Aratu é mais receptiva, aceitando elementos tecnológicos selecionados, entre os quais não está a mandioca e seu processo de transformação, aceito apenas em locais restritos.
A Tradição Tupiguarani parece a mais recente das populações aldeãs, tendo um certo domínio sobre o vale do Paranaíba a partir dele acompanha os afluentes, indo acampar nos abrigos anteriormente habitados pela Tradição Uru. Também tem aldeias dispersas na bacia do Alto Araguaia, mas aparentemente sem muita autonomia, convivendo às vezes na mesma aldeia com grupos horticultores de outras Tradições.
O Tupiguarani da bacia do Tocantins tem as aldeias ainda mais dispersas e recentemente, como se realmente fosse, tal qual se imagina, populações vindas já no período colonial, enfrentaram não só os demais índios aldeões já instalados, mas também os colonizadores brancos que os teriam trazido.
Se a Tradição Uru e a Tradição Tupiguarani, mandioqueiros, parecem mais próximos às culturas amazônicas, embora talvez não tenham procedência imediata de lá, a Tradição Aratu/Sapucaí faz parte de uma Tradição mais de Centro-Nordeste. A Tradição Una, com menos domínio sobre as áreas abertas, disputadas pelos aldeões da Tradição anterior, se comprime numa faixa entre estes e as populações coletoras-cultivadoras do planalto meridional, tradicionalmente conhecidas por suas aldeias de casas subterrâneas.
Não obstante, esta sua posição marginal, é nela, fora da Amazônia, que estão as datas mais antigas para a cerâmica; talvez seja ela uma forma de cultura anterior ao desenvolvimento dos aldeões e, quem sabe, a origem deles.
Talvez com exceção do Tupiguarani, os representantes das outras Tradições viveram no território durante séculos sem muita movimentação, como numa terra que era deles; sem maiores mudanças, a não ser as normais adaptações de fronteiras, onde populações mais antigas aceitam novas tecnologias recém-vindas...
... Até o dia em que irromperam na área, em grandes destacamentos armados, homens diferentes, não interessados em plantar, colher e caçar, nem em construir aldeias entre o cerrado e a mata, ou à beira da lagoa ou do rio. Queriam levar gente, pedras brilhantes e ouro. Para muito longe. Meados do século XVII.
Era o caos. As roças pilhadas, as aldeias demolidas, as mulheres violentadas, as terras de cultivo invadidas, as pessoas morrendo de doenças desconhecidas. A guerra foi a solução ditada pelo desespero. A derrota o aldeamento, a desmoralização, a extinção ou a fuga, as conseqüências.
Idéias para uma história das quinze gerações que se sucederam aos índios
De todos os grandes domínios morfoclimáticos e fitogeográficos brasileiros o cerrado tem sido o domínio que mais transformações vem sofrendo nos últimos anos. Não só transformações das técnicas de produção, porém muito mais profundas, que tem afetado o próprio sistema de vida das populações, desestruturando os valores culturais e muitas vezes provocando um vazio, ou seja não repondo algo que venha a preencher o espaço deixado, pelos elementos que foram ou estão sendo destruturados.
Os antigos núcleos urbanos, quase todos originados em torno de atividades mineradoras, principalmente no início do século XVIII, vêem-se de repente, transformados em pólos regionais, de inovações e agenciadores de "mudanças radicais" nos sistemas de ralações, com seus inúmeros serviços, quase todos voltados para atividades agro-industriais, com preocupações imediatistas.
A criação de Goiânia, posteriormente Brasília, paralelamente ao desenvolvimento do sistema viário e ao processo de modernização da agricultura, vieram contribuir com certa radicalização nas modificações dos fatores até então estruturados, rompendo em estilhaços seus traços mais tradicionais.
Alguns modelos tradicionais de interação homem-ambiente, em virtude do isolamento de certas áreas persistem até os dias atuais, como certos enclaves do oeste da Bahia, sul do Piauí e Maranhão e em muitos pontos do Vão do Paraná e margem direita do Tocantins, fato que com a implantação desse novo Estado e a construção de sua capital Palmas, uma nova "onda" de modificações significativas, já tiveram seus processos iniciais.
Até bem pouco tempo as áreas do Sistema Biogeográfico dos Cerrados, não eram muito valorizadas, nem procuradas para implantação de grandes atividades agropastoris. As suas partes mais intensamente ocupadas eram restritas aos subsistema de matas, ou seja, áreas florestadas que existem dentro do sistema e que estão sempre associadas a solos de boa fertilidade natural.
Por isso essas áreas foram as primeiras a receberem o impacto de uma degradação maior. Ao seu lado em escala menor, pode ser citada as áreas que compõem o subsistema Cerradão e as Matas-Galerias.
As demais áreas que constituem as maiores dos sistemas, como o Subsistema do Cerrado, do Campo, das Veredas e Ambientes Alagadiços, em virtude das características do solo, não favorecem de imediato uma ocupação intensiva com o desenvolvimento a de práticas agrícolas desenvolvidas. Essas áreas eram ocupadas pelo criatório extensivo que tinha como suporte uma pastagem nativa, cujo teor alimentício, estava condicionado a sazonalidade climática, o que obrigava a migrações longas dos rebanhos, que durante a estação seca eram conduzidos para as "veredas' onde a umidade mantinha verdejante a pastagem mesmo no auge da seca.
Entretanto essas áreas não ocupam grande extensão e na época da estação chuvosa, em função de muitos fatores, não é propícia a ocupação por rebanhos. Nesta época porém o rebanho pode ser transportado para as áreas mais elevadas ( campos e cerrado). Esse fator das migrações sazonárias é responsável por um sistema pastoril que exige grandes extensões de terras, que poderiam ser compradas, arrendadas ou simplesmente ocupadas na forma de posse ou "fechos".
Com a utilização do calcário para a correção da acidez do solo, a introdução do arado e sistemas mecânicos de desmatamento e também a facilidade de irrigação transformou essas áreas , anteriormente impróprias para atividades agrícolas em áreas produtivas e a substituição das pastagens nativas, por espécies estrangeiras, modificou radicalmente o quadro pastoril.
Os impactos sobre o ambiente causados por esse novo modelo de ocupação são visíveis e podem ser caracterizados pelos itens seguintes:
* Empobrecimento genético;
* Empobrecimento dos ecossistemas;
* A destruição da vegetação natural;
* Propagação de ervas exóticas;
* A extinção da fauna nativa;
* Diminuição e poluição dos mananciais hídricos
* Compactação e erosão dos solos;
* Contaminação química das águas e da biota;
* Proliferação de doenças desconhecidas etc.
Esses fatores em conjunto geram inúmeros outros que por sua vez , funcionam como agentes de atração populacional e modificações significativas do ambiente, como por exemplo a demanda de energia que exige a formação de grandes reservatórios e usinas geradoras, que criam inúmeras frentes de trabalho, diretas e indiretas, acarretando entropias de grande alcance natural e social.
Assim é que ao se entrar no final do século XX, encontra-se em suspenso o destino do cerrado.
Se as próximas décadas trarão sua ruína ou salvação, ainda não se pode dizer.
Embora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informações suficientes para impedirmos uma degradação irreversível.
O que se pode afirmar é que enquanto o desejo de explorar o cerrado tiver raízes estrangeiras, a possibilidade de um programa racional de desenvolvimento será nula.
Esta perspectiva é ainda mais trágica porque só o Homo sapiens entre todos os seres vivos, que tem a capacidade de encarar o seu meio ambiente dentro de uma escala mais abrangente, não se limitando à duração de uma vida.
Quando analisamos as atividades humanas dentro da perspectiva do tempo geológico, somos forçados a reconhecer que o que está acontecendo na biosfera do cerrado, hoje em dia, nada tem de comum. De fato, desde que os organismos primordiais desenvolveram a capacidade de liberar oxigênio, há centenas de milhões de anos, nenhuma das espécies novas desenvolveu a habilidade de alterar as condições de adaptação da vida sobre a terra.
Os continentes mudaram de forma, as geleiras avançaram e recuaram, os mares se ergueram, algumas montanhas submergiram e os pólos se deslocaram, mas os parâmetros físicos e químicos permaneceram essencialmente os mesmos.
Agora, de repente, novos compostos químicos em concentrações anormais, estão sendo lançados na água, no solo e no ar. Do mesmo modo que as populações indígenas do cerrado, foram quase que exterminadas pelas doenças do Velho Mundo, assim também as plantas e os animais que evoluíram durante centenas de milhões de anos são incapazes de enfrentar produtos químicos estranhos, introduzidos bruscamente no seu habitat.
Conhecendo de uma maneira geral como opera a seleção natural, podemos predizer com toda a segurança que das milhões de espécies que restaram, poucas serão pré-adaptadas às novas condições, mas nada garante que o Homo sapiens venha a figurar entre os sobreviventes.
ALTAIR SALES BARBOSA é pesquisador da Universidade Católica de Goiás, diretor do Instituto do Trópico Subúmido e doutor em Antropologia-Arqueologia pela Smithsonian Institution de Washington(DC), EUAFotos de Weimar Carvalho, Paulo J.S. e Walter Sanches Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2000)

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